Lendas da Ilha da Magia: Histórias Assustadoras de Florianópolis
Quais histórias misteriosas fazem parte da cultura de Floripa?
10 de Julho de 2026
Se você chegou em Florianópolis pelas praias paradisíacas e pelo clima leve da ilha, prepare-se para descobrir um lado bem diferente (e arrepiante) desse destino: suas lendas! Não é à toa que a cidade é conhecida como Ilha da Magia! Muito além da natureza exuberante, Floripa carrega um imaginário rico, cheio de histórias que misturam mistério, tradição e um toque de fantasia.
Grande parte dessas narrativas foi trazida pelos açorianos que colonizaram a ilha e, por muito tempo, seguiram vivas no boca a boca, sendo passadas de geração em geração até serem registradas por estudiosos (com destaque para o pesquisador Franklin Cascaes, que dedicou sua vida a preservar esse universo fantástico). E o mais interessante? Essas lendas não ficaram no passado. Elas continuam vivas até hoje, fazendo parte da cultura, do turismo e do jeito de Floripa.
As Bruxas da Ilha
Se existe um símbolo do folclore de Florianópolis, são as bruxas! Essas figuras misteriosas permeiam o imaginário da ilha desde os primeiros tempos e ajudaram a transformar a cidade no que hoje se chama de Ilha da Magia.
As histórias variam bastante! Alguns relatos falam de bruxas que trançavam crinas de cavalos durante a noite, deixando os animais inquietos ao amanhecer. Outros mencionam roubos de barcos, feitos de forma tão sutil que ninguém sabia explicar quem os havia levado.
Na tradição local, o medo em torno dessas mulheres não vinha apenas de supostos poderes sobrenaturais, mas de sua independência e de como desafiavam as normas da sociedade: algumas viviam sozinhas, outras tinham opiniões fortes ou ocupavam papéis que não eram esperados para mulheres da época. Muitas eram curandeiras ou benzedeiras, com conhecimento profundo de plantas e remédios, e justamente por isso foram rotuladas como bruxas. Ao longo do tempo, o receio das pessoas transformou essas mulheres em personagens míticos, e suas ações passaram a ser interpretadas como magia e poder sobrenatural.
O mais curioso é que muitas dessas histórias atravessaram gerações e foram reinterpretadas ao longo do tempo. No passado, a palavra “bruxa” era usada com medo e desconfiança. Hoje, ela pode até significar algo mais simbólico, como um símbolo de força feminina, conhecimento ancestral e da riqueza cultural que Floripa carrega consigo.
As Bruxas de Itaguaçu
Reza a lenda que, há muito tempo, um grupo de bruxas se reuniam na Praia do Itaguaçu para encontros secretos durante a noite. Mas em uma dessas noites, algo deu errado.
As bruxas organizaram uma grande festa, mas decidiram não convidar o diabo, alegando que ele cheirava a enxofre. A ousadia não passou despercebida! Como castigo, o diabo apareceu furioso e lançou uma maldição: todas seriam transformadas em pedras, ali mesmo, sem chance de escapar.
E foi assim que, segundo a lenda, surgiram as formações rochosas espalhadas pelo mar da Praia do Itaguaçu. Quem visita o lugar hoje consegue ver essas pedras e, com um pouco de imaginação, até identificar silhuetas que lembram figuras humanas. Verdade ou não, o fato é que essa história atravessou gerações e se tornou uma das mais conhecidas de Florianópolis!
Lagoa do Peri e da Lagoa da Conceição
Nem todas as lendas da ilha são assustadoras. Algumas são marcadas por romance… e tragédia.
Uma das mais conhecidas conta a história de amor entre Peri, um indígena, e Conceição, uma bruxa. Mas esse não era um romance comum: vinham de mundos diferentes, e como toda boa história trágica, esse amor não foi aceito. O relacionamento foi proibido, e como punição, os dois foram separados de forma definitiva. As lágrimas de Peri teriam formado a Lagoa do Peri, enquanto Conceição, tomada pela tristeza, também chorou sem parar e essa seria origem da maior lagoa da Ilha de Santa Catarina, a Lagoa da Conceição.
Criaturas e Assombrações da Ilha
Além das bruxas, a Ilha da Magia guarda um imaginário repleto de criaturas e fenômenos inexplicáveis que fazem parte do folclore local.
O Lobisomem de Ratones
No bairro de Ratones, no Norte da ilha, existe uma das lendas mais conhecidas fora do universo das bruxas: o Lobisomem de Ratones. A história conta que uma mulher percebeu que algo estranho rondava sua casa à noite. Um “cachorro” aparecia sempre que ela saía para dar banho no filho, tentando mordê-la.
Certa noite, irritada, ela espantou o animal, que fugiu, deixando rasgos em sua saia. No dia seguinte, para seu espanto, descobriu que o agressor não era um cão comum: seu próprio marido havia se transformado em lobisomem, sumindo todas as noites e voltando sem que ninguém suspeitasse. A confirmação veio quando ela percebeu os pedaços da saia rasgada ainda presos à boca dele.
As luzes do Norte da Ilha
No Canto do Bota, também no Norte da ilha, moradores relatam um fenômeno que desperta fascínio e medo: luzes misteriosas que aparecem à noite sobre a costa. Elas surgem como pequenas esferas luminosas que podem crescer e se mover, às vezes dando a impressão de que acompanham quem caminha ou navega pelo local.
Existem várias versões para explicar esse fenômeno dentro das tradições locais. Alguns dizem que são os espíritos de pescadores falecidos, outros acreditam que seja a alma de um padre que morreu na região, e há quem veja o fenômeno apenas como um mistério natural ainda não explicado.
O Boitatá
Embora seja uma lenda de origem indígena presente em várias regiões do Brasil, o Boitatá também faz parte do imaginário que circula em Florianópolis. No idioma guarani, “mboy tatá” significa literalmente “cobra de fogo” (mboy = cobra, tatá = fogo). Com o tempo, a expressão foi reinterpretada pelos portugueses, que associaram o nome ao “boi”.
Em Florianópolis, mais do que uma versão própria da lenda, o que existe são relatos e interpretações do imaginário popular que associam luzes misteriosas vistas em áreas naturais, especialmente manguezais e regiões úmidas da ilha, a esse tipo de narrativa folclórica. Esses relatos se conectam a fenômenos naturais como o fogo fátuo, que pode ocorrer em ambientes com decomposição de matéria orgânica, gerando pequenas luzes vistas à noite.
Esse tipo de narrativa ganhou ainda mais força graças ao trabalho de pesquisadores do folclore local, como Franklin Cascaes, que registrou e ajudou a preservar diversas histórias e crenças populares da Ilha da Magia.
O papel de Franklin Cascaes
Se hoje conhecemos tantas dessas histórias, muito se deve ao trabalho de Franklin Cascaes. Ele foi o principal responsável por registrar o folclore da ilha, documentando lendas sobre bruxas, lobisomens, criaturas mágicas e costumes antigos da população. Seu trabalho vai além de simples relatos: Cascaes também criou ilustrações, gravuras e esculturas que capturavam a imaginação e a memória das histórias. Graças a ele, muitas tradições que antes existiam apenas no boca a boca puderam ser preservadas e estudadas, ajudando a consolidar uma parte fundamental da identidade cultural de Florianópolis.
Para quem quiser uma análise mais completa de suas obras e da sua importância, vale conferir o nosso artigo dedicado a Cascaes Aqui!
Curiosidades
As lendas da Ilha da Magia não existem só para assustar: elas têm um papel cultural profundo e dizem muito sobre como os moradores viam o mundo ao redor no passado… e ainda veem hoje.
Muitas das lendas nasceram como formas de explicar fenômenos naturais que intrigavam as pessoas: barulhos estranhos na noite, luzes misteriosas na água, formações rochosas curiosas ou mudanças no clima. Em tempos em que a ciência ainda não estava ao alcance de todos, esses contos ajudavam a dar sentido ao que parecia ser magia.
Algumas narrativas surgiram também como formas de ensinar crianças, incentivando comportamentos como cuidado ao andar sozinho à noite ou respeito pela natureza e pelos mais velhos. Era uma maneira lúdica de passar valores e limites, usando personagens que todo mundo conhecia.
Cada comunidade da ilha tem suas próprias versões de muitas dessas lendas. Uma mesma figura pode aparecer de formas diferentes dependendo de quem contou a história, e isso faz parte da riqueza do folclore oral, que se adapta e vive junto com as pessoas.
O mais interessante é que essas histórias não ficaram no passado. Elas ainda estão vivas no turismo e na cultura local: em placas informativas, em passeios guiados, em museus e feiras, e nas conversas entre moradores e visitantes.
Então, quando estiver por aqui, que tal olhar a ilha com outros olhos? Prestar atenção nos detalhes, ouvir as histórias dos moradores… e, quem sabe, sentir um pouquinho da magia que deu origem a tudo isso.
E se quiser mergulhar ainda mais nesse lado cultural e misterioso de Florianópolis, uma ótima forma de explorar a ilha é através do nosso Private City Tour by Car, com roteiro personalizado e paradas que ajudam a conectar paisagens, histórias e curiosidades da Ilha da Magia de um jeito muito mais especial.
Gabriela Scherer
Autora
Sou estudante de cinema, apaixonada por cultura e histórias que conectam pessoas. Danço há mais de sete anos e já explorei sete países em busca de novas inspirações. Entre uma foto e uma boa conversa, sigo vivendo a arte todos os dias.
